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08/11/2015

GAVETAS

  


      Não deves abrir as gavetas
    fechadas: por alguma razão as trancaram,
    e teres descoberto agora
    a chave é um caso que podes ignorar.
    Dentro das gavetas sabes o que encontras: 
    mentiras. Muitas mentiras de papel,
    fotografias, objectos.
    Dentro das gavetas está a imperfeição
    do mundo, a inalterável imperfeição,
    a mágoa com que repetidamente te desiludes.
    As gavetas foram sendo preenchidas
    por gente tão fraca como tu
    e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
    Há um mês ou um século, não importa.

Pedro Mexia, Duplo império

07/08/2015

IN MEMORIAM

Ana Hatherly (1929-2015)


Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente

quando não sabe que é gente.

09/07/2015

TEMPO



Conta e Tempo 

  Deus pede estrita conta de meu tempo.
  E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta. 
   Mas, como dar, sem tempo, tanta conta 
    Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo? 

Para dar minha conta feita a tempo, 
  O tempo me foi dado, e não fiz conta, 
     Não quis, sobrando tempo, fazer conta, 
          Hoje, quero acertar conta, e não há tempo. 

        Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta, 
         Não gasteis vosso tempo em passatempo. 
          Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta! 

             Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo, 
       Quando o tempo chegar, de prestar conta 
  Chorarão, como eu, o não ter tempo… 

                                                  Frei António das Chagas

07/06/2015

DOMINGO

Pequena elegia chamada domingo

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios...)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

                   Eugénio de Andrade

31/05/2015

OS LOUCOS

      Há vários tipos de louco.

    O hitleriano, que barafusta.
    O solícito, que dirige o trânsito.
    O maníaco fala-só.

    O idiota que se baba,
    explicado pelo psiquiatra gago,
    O legatário de outros,
    o que nos governa.

    O depressivo que salva
    o mundo. Aqueles que o destroem,

    E há sempre um
    (o mais intratável) que não desiste
    e escreve versos.

    Não gosto destes loucos,
    (Torturados pela escuridão, pela
    morte?)
    Gosto desta velha senhora
    que ri, manso, pela rua,
    de felicidade.


    António Osório, A ignorância da morte
     

17/05/2015

DIÁRIO

   Ler diários, cartas ou biografias não significa "bisbilhotar", mas sim conhecer uma época, uma pessoa, hábitos e curiosidades.
  Nessas leituras, encontrámos, numa carta de Sophia de Mello Breyner Andresen a Jorge de Sena, as dificuldades diárias de uma poetisa que também tem de dar conta de atividades mais banais e de gerir, em simultâneo, a necessidade de escrever. Belo texto! 


 Há dias aconteceu-me isto: comecei a escrever um poema à tarde, mas fui tão interrompida que desisti. À noite tentei acabá-lo mas estava cansada demais e dispersa em mil bocados. No dia seguinte de manhã fui com a cozinheira à praça. E de repente no meio de peixes, das couves e das galinhas pensei que precisava de parar um minuto, um minuto de férias sem cálculos nem contas. Então mandei à cozinheira que fosse ela comprando os legumes e "fugi" para o café da praça e pedi um café ao balcão. Enquanto estava a tomar o café lembrei-me do poema da véspera e pedi ao empregado que me emprestasse um papel e um lápis. Foi assim que consegui acabar o poema num misto de pausa e de euforia.
  Depois fui a correr comprar a fruta! Isto é a minha vida! Mas às vezes fica tudo mal escrito e mal vivido. 

21/04/2015

LETRA PARA UM HINO

 Neste tempo de Abril, nada melhor do que recorrer à poesia de Manuel Alegre. Este poema faz parte de O canto e as armas, de 1967, mas muito atual.


                                                                         «Porque, mudando-se a vida,
                                                                         se mudam os gostos dela»
                                                                         Camões, Babel e Sião, vv. 84-85


É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre.


20/04/2015

TROVA DO VENTO QUE PASSA

  Não se pode falar de Abril, não se pode comemorar o 25 de abril sem se recordar a Trova do vento que passa, cantada por Adriano Correia de Oliveira, com letra de Manuel Alegre e música de António Portugal.



  Letra atualíssima, pois, ainda hoje, esperamos que 
      
     há sempre alguém que resiste
     há sempre alguém que diz não.

  Podes ler este poema e outros da Praça da canção, de Manuel Alegre, que este ano comemora 50 anos da sua edição.
  A BE empresta.

13/04/2015

ARTE POÉTICA

 José Jorge Letria também foi um dos cantores de intervenção, embora a voz não fosse das melhores.... Em 1972 gravou o disco Até ao pescoço, do qual aqui reproduzimos Arte poética, com letra de Hélia Correia.





                         Que o poema tenha carne
                         ossos vísceras destino
                         que seja pedra e alarme
                         ou mãos sujas de menino.
                         Que venha corpo e amante
                         e de amante seja irmão
                         que seja urgente e instante
                         como um instante de pão.

                         Só assim será poema
                         só assim terá razão
                         só assim te vale a pena
                         passá-lo de mão em mão.

                         Que seja rua ou ternura
                         tempestade ou manhã clara
                         seja arado e aventura
                         fábrica terra e seara.
                         Que traga rugas e vinho
                         berços máquinas luar
                         que faça um barco de pinho
                         e deite as armas ao mar.


                         Só assim será poema
                         só assim terá razão
                         só assim te vale a pena
                         passá-lo de mão em mão



12/04/2015

GALILEU



  A 12 de Abril de 1633 começava o processo da Inquisição a Galileu Galilei. Neste mês de Liberdade, a homenagem de António Gedeão.

POEMA PARA GALILEU

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.


24/03/2015

POESIA



EXCESSO DE POESIA

   Ia todos os dias à biblioteca e todos os dias era o primeiro a chegar. Pedia um livro de poesia e sentava-se de frente para a entrada, lendo e fantasiando. Sempre que a porta se abria, descolava disfarçadamente os olhos dum poema e observava quem entrava. Andou nisto anos a fio, entre versos, rimas e sonhos, procurando a mulher da sua vida. Quando a encontrou perdeu-a e em poucos minutos.
   Na realidade, não teve prosa para ela.


Fernando Gomes, Primeira antologia de micro-ficção portuguesa

18/01/2015

+ TORGA


               Mãe:
               Que visita tão pura que me fizeste
               Neste dia!
               Era a tua memória que sorria
               Sobre o meu berço.
               Nu e pequeno como me deixaste,
               Ia chorar de medo e de abandono.
               Então vieste, e outra vez cantaste,
               Até que veio o sono.


                                                                                                    Miguel Torga, Diário IV