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29/05/2016

LIBERDADE




Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

21/05/2016

SÚPLICA




Súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti, como de mim.

Perde-se a vida, a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz, seria
Matar a sede com água salgada. 


Miguel Torga, Câmara Ardente

14/05/2016

UMA PEQUENINA LUZ




UMA PEQUENINA LUZ


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.


Jorge de Sena



Poema dito por Carmen Dolores.

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

Leia mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=99988 © Luso-Poemas

01/05/2016

NESTE DIA

   De noite
  ouvi barulho
  na cozinha.

  Levantei-me.

  Fui ver.

  A mãe passava a ferro
  os calções que eu devia
  levar à escola.

  Sentada, mal podia
  com o ferro. Longe
  um galo nos dizia "o dia aí vai".

  Esfrego os olhos estremunhado.

  E a mãe:

  - O que é, filho? Cuidado
  não acordes o pai.


Mário Castrim





26/04/2016

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO


   O poeta Mário de Sá-Carneiro suicidou-se em Paris, no dia 26 de abril de 1916. De entre a correspondência que enviou a Fernando Pessoa, encontra-se o bilhete onde escreveu:
  Um grande, grande adeus do seu pobre Mário de Sá-Carneiro.
  Alguns dias antes, a 18 de abril, já tinha escrito, também a Pessoa: Escreve-me muito - de joelhos lhe suplico. Não sei nada, nada, nada. (...) Tenha muita pena de mim. E no fundo tanta cambalhota. E vexames. Que fiz do meu pobre Orgulho? Veja o meu horóscopo. É agora, mais do que nunca, o momento. 
  Estes e outros manuscritos podem ser vistos em Paredes de Coura na exposição evocativa do centenário da morte de Sá-Carneiro - mil anos me separam de amanhã - até ao dia 22 de maio.


  A exposição termina numa sala com chocalhos e com o poema 
     Quando eu morrer batam em latas,
     Rompam aos saltos e aos pinotes,
     Façam estalar no ar chicotes,
     Chamem palhaços e acrobatas!
   
     Que o meu caixão vá sobre um burro
     Ajaezado à andaluza
        A um morto nada se recusa,
     Eu quero por força ir de burro.


25/04/2016

ABRIL 9



O Dia da Liberdade
25 de Abril

    Este dia é um canteiro
    com flores todo o ano
    e veleiros lá ao largo
    navegando a todo o pano.
    E assim se lembra outro dia febril
    que em tempos mudou a história
    numa madrugada de Abril,
    quando os meninos de hoje
    ainda não tinham nascido
    e a nossa liberdade
    era um fruto prometido,
    tantas vezes proibido,
    que tinha o sabor secreto
    da esperança e do afecto
    e dos amigos todos juntos
    debaixo do mesmo tecto.

José Jorge Letria, O livro dos dias

24/04/2016

ABRIL 8




             Ficaste na pureza inicial
             do gesto que liberta e se desprende.
             Havia em ti o símbolo e o sinal
             havia em ti o herói que não se rende.
             Outros jogaram o jogo viciado
             para ti nem poder nem sua regra.
             Conquistador do sonho inconquistado
             havia em ti o herói que não se integra.
             Por isso ficarás como quem vem
             dar outro rosto ao rosto da cidade.
             Diz-se o teu nome e sais de Santarém
             trazendo a espada e a flor da liberdade.

Manuel Alegre

17/04/2016

ABRIL



   O meu pequeno país: nós não sabíamos,
   nós não acreditávamos que mudasse.
   Acreditar na Revolução é pedir o impossível
   E nós pensávamos que, como os nossos pais,
   iríamos continuar o resto da nossa vida
   a pedir o impossível. Ou aqui, na dura pátria,
   mãe pobre de gente pobre,
   usando a profissão liberal que nos fosse autorizada,
   para brincar ao gato e ao rato com a Polícia,
   ou no exílio, para fugir à guerra.
   Nós nunca percebemos
   o possível.

  Lendas da Índia, Luís Filipe Castro Mendes

15/04/2016

CHUVA, CHUVA, CHUVA...




           Cai a chuva, ploc, ploc
           corre a chuva ploc, ploc
           como um cavalo a galope.
           Enche a rua, plás, plás
           esconde a lua, plás, plás
           e leva as folhas atrás.
           Risca os vidros, truz, truz
           molha os gatos, truz, truz
           e até apaga a luz.
           Parte as flores, plim, plim
           maça a gente plim, plim
           parece não ter mais fim.
A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Luísa Ducla Soares

18/03/2016

AS MÃOS DE MANUEL ALEGRE



Com mãos se faz a paz se faz a guerra
Com mãos tudo se faz e se desfaz
Com mãos se faz o poema ─ e são de terra.
Com mãos se faz a guerra ─ e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedra estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


  O canto e as armas

  A Associação Portuguesa de Escritores atribuiu a Manuel Alegre o Prémio Vida Literária 2015/2016

02/03/2016

UMA DOSE DE AFETO

 No dia 29, comemorou-se, mais um, O Dia Mundial das Doenças Raras, motivo para David Rodrigues, poeta já aqui por mais de uma vez referido, ter escrito este belíssimo poema.


  Vamos continuar a lembrarmo-nos de administrar afeto, numa doença rara, numa doença vulgar ou quando há saúde. pois não apresenta contra-indicações, é barato e não necessita de receita médica.

20/01/2016

DON SEBASTIEN, ROI DE PORTUGAL

                                       
 O Desejado, o Encoberto, o que levou o reino ao desastre de Alcácer Quibir e ao interregno da independência, D. Sebastião, nasceu a 20 de janeiro de 1554. O mito do seu desaparecimento percorreu séculos, sendo tema de livros, peças de teatro, filmes e de uma ópera, de que aqui reproduzimos um excerto.
 Donizetti, a partir de um libreto de Eugène Scribe, baseado numa peça de Paul Foucher, compôs a ópera Dom Sebastien, roi de Portugal, com estreia a 9 de novembro de 1838.

  Ainda hoje, há quem espere por um D. Sebastião qualquer que irá resolver todos os problemas, mas, como diz Manuel Alegre, É preciso enterrar el-rei Sebastião.
  Abaixo el-rei Sebastião

  É preciso enterrar el-rei Sebastião
  é preciso dizer a toda a gente
  que o Desejado já não pode vir.
  É preciso quebrar na ideia e na canção
  a guitarra fantástica e doente
  que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

  Eu digo que está morto.
  Deixai em paz el-rei Sebastião
  deixai-o no desastre e na loucura.
  Sem precisarmos de sair o porto
  temos aqui à mão
  a terra da aventura.

  Vós que trazeis por dentro
  de cada gesto
  uma cansada humilhação
  deixai falar na vossa voz a voz do vento
  cantai em tom de grito e de protesto
  matai dentro de vós el-rei Sebastião.

  Quem vai tocar a rebate
  os sinos de Portugal?
  Poeta: é tempo de um punhal
  por dentro da canção.
  Que é preciso bater em quem nos bate
  é preciso enterrar el-rei Sebastião.                         

17/01/2016

BOM DIA!!

  Quando entramos num estabelecimento, num elevador, numa sala de espera e dizemos: Bom dia!, alguns respondem, outros murmuram e outros ignoram-nos com ar  de: Conheço-o de algum lado? O hábito de saudar está em desuso, ao contrário do simpático uso dos nossos vizinhos galegos.
   David Rodrigues, no seu último livro de poemas, Estes cantares fez & som escarnhos d' ora, retrata muito bem esta situação:

  a sala de espera do laboratório
  encontrava-se repleta de utentes

  parei pois à entrada e os presentes

  saudei com um delicado bondia

  ninguém correspondeu à saudação

  enganei-me pensei ou fui enganado

  dirigi-me de imediato ao balcão

  de atendimento e desculpe-me menina

  a sala que há instantes me indicou

  é destinada apenas a surdos-mudos

  Vá lá, não custa nada!






10/01/2016

AGENDA

  No início/final do ano, um dos rituais é/era o preenchimento da nova agenda, assim como a atualização da lista de endereços e telefones, como nos diz Pedro Mexia.



    HÁ NOMES QUE FICAM

    Há nomes que ficam, sem préstimo, nas agendas,
    transitam de ano para ano por inerência
    ou desleixo, por vezes o nome próprio.
    É uma referência obscura, e nunca houve apelido.
    Os números, em poucos anos,
    passam de mnemónicas e criptogramas,
    indicam sem dúvida que nos cruzámos
    com gente que se cruza connosco,
    que trocámos telefones como se
    trocássemos alguma coisa,
    mas tudo muda, os conhecidos
    tornam-se amigos e depois desconhecidos.
    Estes nomes, posso riscá-los
    como se fosse velho e eles mortos,
    mas os números, como uma praga,
    acumulam-se, escritos
    com tintas diferentes
    e por vezes nas letras erradas.
    Não posso desfazer-me das agendas
    nem começar uma todos os anos,
    mas já não sou o mesmo:
    os números observam as minhas idades
    e talvez pudesse agora marcar este
    que não me diz nada
    e contar tudo
    a alguém que não de lembra de mim.

02/01/2016

ANO NOVO




RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

21/12/2015

NATAL E POESIA

  Poema muito conhecido de David Mourão-Ferreira (1927-1996), mas que vale sempre a pena recordar.




LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS


Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito 

06/12/2015

POESIA




Penúltima vivência

     quero só
     o silêncio da vela.
     o afogar-me
     na temperatura
     da cera
     quero só
     o silêncio de volta:
     infinituar-me
     em poros que hajam
     num chão de ser cera.


                                                   Ondjaki

27/11/2015

BOM DIA!

 

  Faz sempre confusão, quando entramos em qualquer espaço, que ninguém seja capaz de dar um bom dia, ou de responder a esse cumprimento.
  Todos os dias passam alunos por nós como se fôssemos invisíveis. (Estranhamente, quando fora da Escola, põe o melhor sorriso...)
  Ontem, foi apresentado o livro do nosso Amigo David Rodrigues, Estes cantares fez & som escarnhos d'ora, de onde retiramos este poema que isto tão bem ilustra.

  a sala de espera do laboratório
  encontrava-se repleta de utentes
  
  parei pois à entrada e os presentes
  saudei com um delicado bondia*

  ninguém correspondeu à audação
  enganei-me pensei ou fui enganado

  dirigi-me de imediato ao balcão
  de atendimento e desculpe-me menina

  a sala que há instantes me indicou
  é destinada apenas a surdos-mudos
  
 Pelo que já lemos, os poemas são excelentes. Aqui iremos transcrever alguns, proximamente.

* no original

 

14/11/2015

A CAIXA DE COSTURA




    Nunca compreendi
  a caixa de costura.
  Testemunha muda
  de tardes e gerações,
  poder feminino
  sobre o útil, no fundo
  dos carrinhos e dos dedais
  devia haver a esperança.
 Pedro Mexia, Duplo império