04/11/2016

BOM DIA!

Room of Philosophy, Jungho Lee

A expressão "Bom dia!" é usada na língua comum por muitas pessoas no português europeu há muito tempo. Foi inventada por alguém um dia e a moda pegou. Saber se foi assim e como isto aconteceu e acontece é uma questão muito complicada. (...)
Acho "Bom dia!" lindo. É um grande verso, um grande poema. Acho que o Homem não fica zangado se eu disser que acho "Bom dia!" tão bom e melhor do que a "Odisseia" e a "Ilídia".
"Bom dia!" é uma oração, um poema de amor, uma epopeia.
Bandolim, Adília Lopes

03/11/2016

A POESIA VOLTOU A SÃO BENTO

Aquela cativa, que me tem cativo, porque nela vivo, já não quer que viva (...)

O Ministro das Finanças esteve ontem no Parlamento para mais uma audição sobre o Orçamento de Estado para 2017 (desta vez trouxe as famosas tabelas). Respondeu às críticas sobre as cativações de verbas dos ministérios, recorrendo aos versos iniciais de uma redondilha que Camões escreveu para Bárbara, a escrava por quem se perdeu de amores na Índia. Estava inspirado o Senhor Ministro. De Camões passou a Jorge Luís Borges. Após uma intervenção de uma deputada, arremessou, Só devemos falar para melhorar o silêncio. O ambiente azedou.
A oposição não quis deixar de estar à altura das incursões literárias de Mário Centeno e, socorrendo-se também de Camões, eis que surge Perdigão Perdeu a Pena
No programa Governo Sombra do passado sábado, Pedro Mexia recordou o episódio que levou Natália Correia a escrever o poema satírico Truca-Truca. Durante o primeiro debate parlamentar sobre a interrupção voluntária da gravidez, um deputado de nome Morgado, afirmou que o acto sexual é para fazer filhos. Natália Correia inspirada pelas declarações do dito deputado, logo escreveu o poema e pediu a palavra. As gargalhadas vieram de todas as bancadas e e a sessão teve de ser interrompida.
Não, não vamos transcrever o Truca-Truca.
Natália Correia (1923 - 1993)


02/11/2016

MUSEU DA MÚSICA MECÂNICA

Sempre que um homem sonha

Durante 30 anos, o professor Luís Cangueiro aliou a paixão pela música com o  espírito colecionista. Conseguiu reunir mais de 600 caixas de música, realejos, autómatos, fonógrafos e gramofones que podem ser agora apreciados no Museu da Música Mecânica, em Pinhal Novo, Palmela. A coleção é representativa da música mecânica, dos finais do século XIX à década de 30 do século XX. Todas as peças expostas estão funcionais, permitindo que se ouçam os seus sons, as suas melodias que nos levam a viajar por memórias de outros tempos e de outras sonoridades.
Vale a pena começar por uma visita virtual aqui.
His Master's Voice (HMV)



01/11/2016

A MORTE E DEPOIS

 Infinite gratitude, René Magritte, 1963

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se
em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio".

E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.

"Adeus! Adeus!"

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
primeiro, os olhos... em seguida, os lábios...
depois os cabelos... a carne, em vez de apodrecer,
começaria a transfigurar-se em fumo...
tão leve... tão subtil... tão pólen... 
como aquela nuvem além vêem?

Nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira


Por mim, nos dias 1 e 2 de Novembro - os dias em que as nossas sociedades científico-técnicas, que fizeram da morte tabu, permitem a visita dos mortos -, coloco um CD com o Requiem Alemão de Brahms e outro com o Requiem de Mozart no leitor de CD, em homenagem aos meus pais, amigos e todos os mortos - poderão ser uns cem mil milhões. A música diz-nos o indizível: o que é existir simultaneamente no tempo e fora dele. 
Padre Anselmo Borges
in DN


31/10/2016

INQUIETAÇÕES

Quando temos um candidato à presidência dos EUA que considera as alterações climáticas "uma farsa", vale a pena chamar a atenção para Antes do Dilúvio (Before the Flood), o novo documentário com Leonardo DiCaprio. 
Antes do Dilúvio lança um alerta urgente para as consequências catastróficas das emissões de carbono para a atmosfera. O ator viaja pelos cinco continentes, vai explicando os efeitos das alterações climáticas e o que se pode fazer para os combater. Conta com participações especiais de Barack Obama e do Papa Francisco, com quem DiCaprio se reuniu para discutir o tema.
Hoje podem ver Antes do Dilúvio, às 21:00, na RTP 1. O documentário está também disponível, gratuitamente, na Internet, no canal youtube.


P.S. - Amanhã é dia de Pão por Deus, só para lembrar... 

30/10/2016

BIBLIOTECA POÉTICA

Falo de um homem que possuía livros de poemas. Foi talvez o único real leitor. Ele abria os livros, um livro. Escolhia um poema. Era um ritual misterioso. Porque ele raspava as letras da página, cuidadosamente, como para conservar a integridade do papel. Raspava e reunia os pedaços negros. Aquecia então água com o vagar próprio da vertigem. Uma estranha ciência de vapores.
A infusão sucedia: a escura substância do poema misturava-se mais e mais com o fervor da água, até ao ponto em que tudo aquilo era vivo. O homem bebia então o poema e o poema flutuava no sangue, atingindo todos os lugares do corpo, reclamando todos os lugares do corpo. Não era previsível o efeito do poema. Cada poema dissolvido, sorvido, feito homem, trazia consigo uma possibilidade própria. O homem crescia com o poema, crescia mais para si, mais para o poema.
O homem que possuía livros de poemas, possuía uma biblioteca em branco. Páginas e páginas de poemas arrancados sem vestígios, um crime perfeito. Era uma biblioteca poética. Uma biblioteca que podia arder.
Vasco Gato, um dos mais promissores poetas da nova geração

29/10/2016

PERSONALIDADE +




Isabel Alçada apresentou o livro PNL - Fundamentos e resultados, na livraria Leya na Bucholtz, no passado dia 18. Nesse mesmo dia, foi convidada da Manhã TSF e falou sobre o impacto do Plano Nacional de Leitura (PNL), nomeadamente, sobre o aumento dos índices de literacia dos jovens de 15 anos. 
A antiga Ministra da Educação é também responsável por coordenar o projeto Voluntários de Leitura, criado pelo Centro de Investigação para Tecnologias (CITI) da Universidade Nova de Lisboa, em 2012. O projeto tem como missão potenciar o desenvolvimento de uma rede nacional de voluntariado na área da promoção da leitura, através de uma plataforma digital que estimule a adesão de voluntários e funcione como instrumento congregador de iniciativas de escolas, bibliotecas e outras organizações.


28/10/2016

LIBERDADE ILUMINANDO O MUNDO

Edouard René de Laboulaye organiza um jantar clandestino para comemorar a vitória americana na Guerra Civil (1865), nascendo, então, juntamente com Frédéric Auguste Bartholdi, a ideia do povo francês oferecer aos EUA uma estátua em honra da liberdade e da independência. Para esse efeito cria uma organização destinada a organizar a recolha de fundos.
Na Exposição Universal de Filadélfia, em 1876, é exposto o braço que empunha a tocha e são vendidas miniaturas.
O engenheiro encarregado da estrutura, Viollet-le-Duc, morre subitamente sem deixar os estudos completos, nem qualquer plano. É, então, recrutado um novo engenheiro - Gustave Eiffel - que apresenta uma nova solução que permitirá reduzir o peso da estátua - a criação de um pilar interior em aço. 600 operários trabalham nesta obra.
Uma nova falta de recursos financeiros leva Bartholdi a expor a cabeça na Exposição Universal de Paris, em 1878, e a criar um diorama, que pode ser visionado por 1 franco, permitindo a ilusão de se navegar diante da estátua no porto de Nova Iorque.
O arquiteto Richard Morris Hunt é escolhido para desenhar o pedestal. De novo, problemas de financiamento vão ser resolvidos por outra personalidade que irá ser conhecida até aos nossos dias - Joseph Pulitzer, do New York World.
Mas os problemas ainda não tinham acabado. Embarcada a 17 de junho de 1886 no navio L' Isère, uma tempestade no mar faz com que não se conheça o paradeiro do navio durante uma semana. 
Finalmente, no dia 28 de outubro, a inauguração, a que assistiu uma multidão de cerca de 1 milhão de pessoas.

Nome oficial da estátua - A liberdade a iluminar o mundo

Em 1944, para celebrar o fim da Guerra, as luzes da coroa piscaram «ponto - ponto- ponto- traço» V de vitória no código Morse.


27/10/2016

IN MEMORIAM







João Lobo Antunes (1944-2016)




Falo muitas vezes da importância da palavra, como acontece no fim de um dos textos de Ouvir com Outros Olhos. Pouco antes de morrer, o filósofo Fernando Gil disse-me que estava a escrever sobre as preposições. Até com palavras que nos parecem insignificantes, podemos construir uma filosofia, um poema. Sempre senti esse encanto da palavra. Quem não estudou pelos livros, nem sabe o que perdeu. E quem não aprecia as palavras também não.
in JL ,21.10.2015




MÚSICA E BIBLIOTECAS

Concertos nas bibliotecas? Mas não são lugares de silêncio para podermos ler, estudar ou trabalhar tranquilamente? Claro, só que também são espaços privilegiados para promover a cultura junto da comunidade. E querem melhor do que assistir a um concerto na Biblioteca Joanina?

Canção da Primavera, Francisco Martins
Concerto na Biblioteca Joanina, Coimbra. 26 de Outubro 2013
Piano, e arranjo para violino e piano, Natalia Pikoul
Violino - Richard Tomes