03/01/2017

O QUE DIZEM OS TEUS OLHOS?

Jantar de fim de ano. Chega um casal jovem, elegante. Os dois educados e simpáticos. Acomodam-se na mesa reservada e de imediato pegam no telemóvel e consultam a página do Facebook. Por vezes falam, mas os olhos não: continuam atentos ao que se passa na rede social. Talvez quando começarem a comer... Não. Coloca-se estrategicamente o telemóvel ao lado do prato e é incrível a agilidade do dedo mindinho.


José Pacheco Pereira no Público de 31 de dezembro (precisamente):

Nada é mais significativo e deprimente do que ver numa entrada de uma escola, ou num restaurante popular, ou na rua, pessoas que estão juntas, mas que quase não se falam, e estão atentas ao telemóvel, mandando mensagens, enviando fotografias, vendo a sua página de Facebook, centenas de vezes por dia. Que vida pode sobrar?

Podem ler o artigo completo aqui.

30/12/2016

IN MEMORIAM

LIA VIEGAS


Poeta, feminista e advogada, defendeu graciosamente muitas mulheres nas décadas de 1970 e 1980. Uma delas foi a jornalista Maria Antónia Palla, mãe do atual primeiro-ministro, que enfrentou um processo crime por causa de uma reportagem sobre o aborto clandestino, transmitida pela RTP em maio de 1976. Morreu esta terça-feira no hospital de Faro, cidade onde nasceu em 1931. Tinha 85 anos.
  expresso.sapo.pt

27/12/2016

Personalidade+

Joel Santos ganhou o primeiro prémio na competição britânica Travel Photographer of the Year. O fotógrafo que há quinze anos optou pela paixão pela imagem e abandonou uma promissora carreira como economista, considera a distinção um estímulo para trabalhar cada vez mais e melhor.
Pescador do Bosumtwi, Gana

26/12/2016

LIVRARIAS


El Ateneo Grand Splendid
Buenos Aires, Argentina

Buenos Aires é a cidade com mais livrarias do mundo (427). A cadeia El Ateneo abriu a mais bonita em 2000, no antigo teatro Grand Splendid, mantendo todo o ambiente esplendoroso da sala. Para além da grande variedade de livros que podem encontrar, imaginem tomar um café no palco onde tantas vezes atuou Carlos Gardel.







25/12/2016

Natal, e não Dezembro

Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira, in Cancioneiro de Natal

23/12/2016

NATAL DAS ILHAS

À Maria e ao Manuel Pinheirinho, primos-irmãos

Natal das Ilhas. Aonde
O prato do trigo novo,
A camélia imaculada,
O gosto no pão do povo?
Olho, já não vejo nada.
Chamo, ninguém me responde.
Açores



Natal das Ilhas. Serão
Ilhas de gente sem telha,
Jesus nascido no chão
Sobre alguma colcha velha?

Burra de cigano às palhas,
Vaca com língua de pneu,
Presépio girando em calhas
Como o elétrico, tu e eu.

Natal das Ilhas. Já brilha
Nas ondas do mar de inverno
O menino bem lembrado,
Que trouxe da sua ilha
O gosto do peixe eterno
Em perdão do seu passado.

Vitorino Nemésio

22/12/2016

PRENDA


   A azáfama das compras de Natal está no seu auge. Já se compra qualquer coisa, sem se pensar na utilidade.
   O Jornal i de ontem publica um estudo onde se pode ler que não vale a pena ficar stressado e preocupado em conseguir um presente personalizado, único e especial.
   Isto porque o próprio stress pode fazer com que a pessoa escolha uma prenda errada por estar tão preocupada com a opinião da outra pessoa e não na utilidade da prenda em si. O mesmo estudo afirma ainda que as pessoas ficam igualmente satisfeitas com prendas elaboradas e também com prendas mais simples. O mais importante é o sentimento e o gesto de partilha, uma vez que as pessoas gostam é de prendas, independentemente do que seja.

  Mas, não pensem que se trata de um problema dos nossos dias. Já no séc. XVII, D. Francisco Manuel de Melo se preocupava com a prenda que deveria dar a uma sua prima, optando por construir o seu próprio presente, embora o ache muito insignificante.

DE CONSOADA A UA S. P.

Que vos hei-de mandar de Caparica,
De que vós, Prima, não façais esgares?
Porque de graças e benções aos pares,
Disso, graças a Deus, sois vós bem rica!

Mel e açúcar? Sou cousas de botica
Coscorões? São piores que folares.
Perus? Não, que são pássaros vulgares.
Porco? Só de o dizer nojo me ficou.

Mandara-vos o Sol, se desta cova
M´o deixaram tomar; mas é fechada,
E inda o é mais para mi a Rua Nova.
Pois, se há de ser nada a consoada,
Mandar-vos-ei, sequer, Prima, esta trova,
Que o mesmo vem a ser que não ser nada.

21/12/2016

MODERNICES


Jornal i
     Por 125 € compramos este presépio criado por Corey e Casey Wright - o Hipster Nativity.
   S. José está a tirar uma selfie para colocar no facebook (deve ser o que o pastor está a ver tão atentamente no tablet...); a vaca é certificada e está a comer ração sem glúten; no telhado, um painel solar; os três Reis Magos são estafetas de uma qualquer empresa de serviço expresso transportados em segways e para escrever este texto foi preciso utilizar quatro palavras inglesas...
    Modernices!



20/12/2016

SANTA CLAUS vs FATHER CHRISTMAS




   Esqueçam o Pai Natal inventado pela Coca-Cola, uma nova história, muito menos comercial e muito mais bonita foi publicada na revista The Spectator, por Mark Forsyth, com o sugestivo título How Santa Claus ate Father Christmas.
    Segundo Mark, foi por volta de 1870 que Father Christmas foi "engolido" pelo americano Santa Claus.
   Desde o séc. XIV que se encontram relatos do Pai Natal, velho e anafado, já que o Natal é antigo e uma festa. Mas, ao contrário do seu "primo" americano, não vivia no Pólo Norte, não dava prendas e não tinha renas. Como se sabe, Nova Iorque já foi Nova Amesterdão, no tempo da colonização holandesa. Ora, S. Nicolau costumava dar prendas aos meninos holandeses, no dia 6 de dezembro.
   Seguindo essa tradição, John Pintard, fundador da Sociedade Histórica de Nova Iorque, em 1804, mandou imprimir panfletos e tentou tornar S. Nicolau o patrono da cidade, sem sucesso.
  Como esta campanha se tornou um pouco ridícula, outro membro desta Sociedade, Washington Irving, escreveu um conto onde coloca S. Nicolau a chegar num trenó, a descer pela chaminé e a encher as meias das crianças. O que era apenas uma brincadeira inspirou um outro membro, Clement Clarke Moore, a escrever um poema que começava: Twas the night before Christmas and all through the house... Assim, S. Nicolau deixa de dar presentes no dia 6 e passa a dá-los no dia 24 de dezembro.
   Em Inglaterra, não era hábito a dádiva de prensas no Natal. No mais famoso conto de Natal, o de Dickens, Scrooge oferece um peru, mas não com o sentido que damos a prenda, mas apenas como uma ajuda para a ceia de Natal. A filha mais velha de Dickens recorda-se que, em 1840, o pai a levou a uma loja na véspera de Natal e de lhe ter comprado um brinquedo, mas sem chaminé ou meias.
   Mas, então, tudo mudou - uma nova moda chegou dos EUA - as prendas, as meias, as chaminés, no Natal.
   Santa Claus ou Father Christmas vieram para ficar, até porque o comércio fá-los reaparecer todos os anos.

  Um BOM NATAL e ... muitas prendas!