15/03/2017

DIA MUNDIAL DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR

    A 15 de março de 1962, o Presidente John Fitzgerald Kennedy fez um discurso sobre a proteção dos interesses do consumidor. JFK salientou que todo consumidor tem direito à segurança, à informação, à escolha e a ser ouvido. O discurso originou debates em vários países e foi o motor para que se realizassem estudos sobre o tema, sendo, por isso, considerado um marco na defesa dos direitos do consumidor. Assim se explica a escolha de 15 de março como Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, comemorado a partir de 1983.
   Em Portugal, os direitos do consumidor encontram-se consagrados na Constituição e na Lei de Defesa do Consumidor. Os consumidores podem reclamar utilizando para o efeito o Livro de Reclamações, obrigatório em todos os estabelecimentos públicos e privados. Em alternativa, podem apresentar uma reclamação diretamente no Portal do Consumidor.
 

14/03/2017

GATOS E ESCRITORES III

Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

Alexandre O´Neill, o gato e o adeus

O GATO, vendo o poeta de ombro apoiado na ombreira a observar a feira cabisbaixa em seu redor, acercou-se dele e perguntou-lhe, no murmúrio ronronado que costuma servir de preâmbulo às grandes questões metafísicas:
- Servos ou donos?
O poeta, por achar a pergunta demasiado enigmática, contornou a resposta afagando-lhe o dorso e dizendo:
- Deves estar cheio de fome, o teu mal é fome, e eu não tenho forma de remediar esse problema, porque não sou rato, nem peixe, nem pássaro estonteado pela luz. Eu sou apenas um pobre poeta de ombro na ombreira.
Mas o gato, apurando o gutural e afectuoso ronrom, insistiu:
- Sei bem ao que venho, sim, porque eu nunca me esqueço dos versos que me são dedicados. Eu bem me lembro das tuas palavras, Alexandre: Que fazes por aqui, ó gato? / Que ambiguidade vens explorar? Quem sou eu, meu caro Alexandre, para te deixar sem resposta, logo a ti, meu poeta de Lisboa, de coração amarfanhado pela tenaz da mais irónica ternura?
Foi então que Alexandre se lembrou do gato do poema, dessa coisa ágil e esquiva, soberana e livre, em forma de assim, fugaz como um golpe de vento, rebelde como uma metáfora imprevista. 
- Tantas vezes te deixei utilizar esta mão — disse — que cheguei a acreditar que, quando escrevesse um poema sobre ti, serias tu mesmo a escrevê-lo, de forma mediúnica, usando o movimento pausado da minha mão sobre o papel.
O gato, esse mesmo, o do poema, roçou a cabeça pelas pernas do poeta, impregnando-se com o seu cheiro, com o perfume das suas palavras exactas e limpas, e depois aventurou-se num breve monologo de bicho filosofante. Assim:
- É como te digo, Alexandre, tu e eu temos em comum este vício felino de sermos livres, nas palavras, nos gestos, nos silêncios. Um dia, tu partes e eu fico para aqui abandonado a miar à lua, como se perguntasse por ti. Um dia, eu parto e tu ficas sem gato a quem possas dedicar o poema, órfão de gato, nostálgico da sua arqueada liberdade arrastada sobre os telhados como uma confissão de nocturnos cios.
O poeta, emocionado com a enleante sabedoria do gato, esse mesmo, o do poema, só conseguiu perguntar-lhe:
- Afinal, vamos lá a saber, o poeta és tu ou sou eu?
Ao que o gato respondeu:
- Somos os dois, Alexandre, somos os dois, cada um à sua maneira. Tu no que escreves e eu no que não escrevo mas vivo. Temos este destino comum a ligar-nos como uma ponte, como uma centelha de luz, como um arame a juntar as duas extremidades da lua nova.
Alexandre, o poeta, só encontrou uma forma de lhe responder:
- Há miar e miar, há ir e voltar.
Ainda a frase não se deixara concluir e já o gato se empoleirara sobre o parapeito de uma janela, muito perto da ombreira da porta, posto de observação do poeta para ver a feira a ficar cada vez mais cabisbaixa, por falta de esperança para erguer de vez a cabeça em direcção ao sol.
Do gato nunca mais o poeta teve noticias, nem em prosa nem em verso, e quando, num sisudo dia 21 de Abril, o coração do poeta, como um gato triste e cansado, se recusou a levar por diante a faina de estar vivo, houve quem avistasse um velho gatarrão sobre o parapeito da janela do hospital, murmurando com a sapiência do seu estilo ronronado:
- Há miar e miar, e tu, Alexandre, hás-de voltar, porque um gato sem o seu poeta de estimação fica prometido à morte como um pardal à inclemência do relâmpago.
E quando alguém, aproximando-se dele, quis saber "o que fazes por aqui, ó gato?", o bichano, arqueando-se para o derradeiro salto na direcção da lua, respondeu apenas:
- Perguntem ao Alexandre, ao O'Neill, que só ele sabe. Os poetas é que sabem. É dos livros.
Conto de José Jorge Letria, em Amados Gatos

13/03/2017

GATOS E ESCRITORES II


Dois poemas de Manuel António Pina



Gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


Às vezes o gato fitava 
com estranheza 
 o que de nós (um excesso) 
se intrepunha entre nós e o gato,  a nossa presença.



12/03/2017

GATOS E ESCRITORES I

  Quem se lembra de Manuel António Pina a alimentar os gatos no cemitério de Agramonte? Eugénio de Andrade viveu também rodeado de gatos e deixou-os invadir a sua poesia. Assim aconteceu e acontece com tantos outros de Bocage a Adília Lopes. 
   Para melhor compreendermos esta relação, vamos convocar entendidos na matéria. 
  Eugénio Lisboa
Eugénio Lisboa - Na Primeira Pessoa - GATOS (excerto) from LB Produções on Vimeo.

Gatos e literatura 

[há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças.

Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.
Estou sempre preparada para o encontro: na mochila carrego com comida para felinos... e um caderno. Se me aparece um gato, faço a vénia, mio delicadamente e dou o almoço. Se me aparece a frase, paro e escrevo.
Sempre de momentos breves, porém intensos e definitivos. Passa-se nisto o tempo de calor. Pelos começos do Outono, surgem hóspedes dispostos a estadia prolongada: o gato fica de pensão completa, passa os meses do frio e vai-se embora. A escrita permanece em casa pelo mesmo período. Os meus gatos de Inverno adoram chuva. A minha escrita só consegue organizar-se em texto quando chove. De Março até Outubro, o que reúno das raras frases que consentem aparecer resulta em pequenos contos. Mas enquanto andam nuvens negras pelo céu, a corrente entre a escrita e os meus dedos alcança nível proporcional à pluviosidade da estação.
Com a subida geral das temperaturas e a saarização deste país, é de fazer ideia que decorrem os dias e os meses e os anos sem que essa energia das palavras que me caem do céu “como farrapos” possa gerar um livro que se veja. Bem procuro imitar um clima nórdico, espalhando em roda certos objectos, tais como o pau-de-chuva do Peru, o quadrinho de areia branca e negra que vai caindo com a gravidade, criando a ilusão de um temporal, uma canção dos LadySmith, Mambazo, Rain, Beautiful Rain, que o Changuito me trouxe, uma caixa de música com o Singing in the Rain… Formam como que um templo de oferendas e é dentro dele que me escondo, à espera.
Porque escrevo frase a frase, hoje uma, outra não sei quando virá, inseridas num esquema musical que determina a sequência. Não é maneira de fazer romances, mas quem sou eu para dizer à escrita que devia tentar ter disciplina?
Estou feliz porque a gatinha que me apareceu este Inverno não tenciona emancipar-se tão depressa. De chuva, pouco vejo. Mas talvez a escrita aceite aqui morar por algum tempo, como esta extraordinária Emily Duncan. É gatinha com nome de escritora – Emily Brontë – e de Isadora, inspiração eterna. Desde que ela apareceu começamos as manhãs a dançar. Se pela noite, surgir uma pequena, amável frase, talvez que finalmente nasça um livro.]
 Hélia Correia, revista Time Out de Lisboa


11/03/2017

26 ANOS DEPOIS



A Disney voltou a trabalhar a história A Bela e o Monstro e, 26 anos depois do filme de animação, estreia um novo filme com imagem real. Emma Watson, a Hermione de Harry Potter, é agora Belle.

10/03/2017

NÃO CHEGOU JÁ?


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

09/03/2017

NOVO RECURSO

O site RTP Arquivos foi remodelado e está disponível desde segunda-feira. 
Um excelente recurso para todos, com documentos em vários formatos (imagem em movimento, audio, fotografia, textos) desde a década de 1930 até à atualidade. Podem começar a pesquisar aqui.

08/03/2017

GATOS ... HÁ MUITOS!

Deita gatos - Collectus
   Este postal fez-nos lembrar que Gatos ... há muitos. Quem ainda se lembra dos homens que percorriam as aldeias a consertar guarda-chuvas, a deitar pingos nas panelas e a remendar a louça partida? Muito, muito poucos. 
  Como garras de gatos, as rachadelas da louça agarravam as partes desavindas, como nesta imagem.




  Processo um pouco deselegante, mas que permitiu que muitas peças valiosas chegassem até nós e estejam agora nos museus.
  Segundo o blogue Velharias do Luís, a operação era assim executada:
 Este trabalho era normalmente feito pelos amoladores galegos que andavam de terra em terra. (...) Usavam umas brocas manuais, que se assemelhavam a uns arcos, para perfurar a loiça, fazendo furinhos oblíquos, mas mesmo assim, era um trabalho difícil e de grande precisão, pois conseguiam uma junção perfeita das partes, que impedia que os líquidos vertessem. Segundo o meu pai, estes amoladores usavam também uma cola feita de clara do ovo, que era altamente resistente ao vapor e humidades.





  Fernando Pessoa recorda-nos o deita gatos que apenas consegue remendar pratos...

    Ó rapaz que deita gatos,
    Deitas gatos só em pratos,
    Só em tachos e tigelas,
    Ou deitas gatos também
    Nas almas e no que há nelas
    Que as quebra em mal e em bem?


    Ah, se, por qualquer magia,
    As tuas artes subissem
    Àquela melhor mestria
    De pôr gatos que se vissem
    Nesta alma que se quebrou
    No que sonho e no que sou!


   Então...Qual então! Que tratos
   Dei a um poema que surgiu!
   Só consertas, só pões gatos
   No inteiro que se partiu.
   O que partido nasceu
   Nem tu consertas nem eu.


07/03/2017

HARRY POTTER NO TEATRO


O elenco de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada.
Fotografia de Manuel Harlan

Depois do sucesso de Harry Potter nos livros e no cinema, confirma-se que o mágico também bate recordes nos palcos.
Harry Potter and the Cursed Child, a adaptação para teatro da mais recente aventura do mágico, conseguiu onze nomeações para os Olivier, os prémios do teatro britânico. Um recorde.
O enredo da peça passa-se 18 anos depois do mágico sair da escola de Hogwarts e é Jamie Parker que veste a pele de Harry Potter, adulto e pai de três filhos.
Tudo isto, somado à fama de Harry Potter, levam a que não seja fácil encontrar um bilhete que permita a entrada no Teatro Palace, em Londres. No website a produção explica que até 29 de abril, do próximo ano, os bilhetes já estão esgotados.
in TSF

05/03/2017

PARABÉNS, PÚBLICO

Este domingo, dia 5 de Março, o PÚBLICO faz 27 anos. O escritor Miguel Esteves Cardoso foi escolhido para ser o director por um dia.
Uma edição especial para ler de ponta a ponta. Só o lado bom do nosso país, pelo menos por um dia.
Comecem exatamente pelo editorial de David Dinis que termina assim:

É isso mesmo. Hoje, o PÚBLICO sopra as suas 27 velas, a olhar para o país como um luxo. A olhar para o jornalismo como um luxo, também. Porque é um luxo estar aqui, não a cada dia, mas a cada minuto que passa. A ajudá-lo a informar-se, a pensar, a escolher, com aquele ADN que o Vicente nos deixou. Mas a procurar novas formas de o fazer. 
Por isso, respire fundo, sopre as velas. O lado bom começa aqui, no seu PÚBLICO. E continuará, com a liberdade de sempre, pelos seus dedos, pelo seu olhar. Até já.

Não esqueçam, está disponível aqui.