03/04/2017

MESTRES


Almada Negreiros e Maria Helena Vieira da Silva
Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam! Não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão… estou perdido.
 José de Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro


As bibliotecas foram um tema recorrente na obra de Maria Helena Vieira da Silva. Pintou mais de trinta e já as celebrámos aqui. A biblioteca do avô materno foi o refúgio da pintora na infância e juventude. Lugar de sonho e de mistério que a marcou, bem como à sua obra.

Biblioteca, Maria Helena Vieira da Silva, 1955
Eu tenho cores de Verão e cores de Inverno. Quando está calor, gosto de pintar em azul, em verde, em branco. O branco, aliás, posso usá-lo durante todo o ano. E quando está frio, gosto do vermelho. 'La Bibliothèque rouge', por exemplo, comecei-o em Paris, lentamente, depois vim para aqui, para Yèvres, no mês de Maio, estava frio, continuei com ele, até que um belo dia desatou a fazer calor e eu virei-o para a parede. Terminei-o no Outono, quando principiei a desejar o calor.

02/04/2017

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO INFANTIL 2017

   No dia 2 de abril comemora-se em todo o mundo o nascimento de Hans Christian Andersen e desde 1967 este passou a ser o Dia Internacional do Livro Infantil, reforçando a importância da leitura e o papel fundamental dos livros para a infância.
   Para assinalar o Dia Internacional do Livro Infantil 2017, a DGLAB convidou o ilustrador João Fazenda, vencedor do Prémio Nacional de Ilustração do ano passado, para ser o autor da imagem do cartaz português.
   A mensagem do IBBY internacional, este ano é da responsabilidade da Rússia. O escritor Sergey Makhotin redigiu a habitual mensagem e o cartaz original é do ilustrador Mikhail Fedorov. Podem ler abaixo a mensagem traduzida para português:
  
   VAMOS CRESCER COM O LIVRO!
  Na minha primeira infância, gostava de construir casas com pequenas peças e toda a espécie de brinquedos. Usava muitas vezes um livro ilustrado a fazer de telhado. Nos meus sonhos, entrava na casa, deitava-me na cama feita com uma caixa de fósforos e olhava para cima, para as nuvens ou para as estrelas do céu. A escolha dependia da ilustração que preferia na altura. Por intuição, segui as regras de vida das crianças que procuram criar um ambiente seguro e confortável à sua volta. E o livro infantil ajudou-me muito a atingir este objetivo.
  Depois cresci, aprendi a ler, e o livro, na minha imaginação, começou a assemelhar-se mais a uma borboleta, ou mesmo a um pássaro, do que ao telhado de uma casa. As páginas do livro pareciam asas que batiam. Era como se o livro, deitado no peitoril, quisesse sair pela janela aberta em direção ao desconhecido. Segurava-o com as mãos e começava a lê-lo, e o livro ia ficando cada vez mais calmo. Então eu próprio voava para outras terras e novos mundos, alargando o espaço da minha imaginação.
   Que alegria ter na mão um novo livro! De início, nunca sabemos sobre o que é que ele fala. Resistimos à tentação de saltar para a última página. E como o livro cheira bem! É impossível distribuirmos o seu cheiro pelos vários elementos que o compõem: tinta, cola… não, é impossível. Existe um cheiro particular no livro, um cheiro único e excitante. As folhas encontram-se coladas, como se o livro não tivesse ainda acordado. E ele só acorda quando começamos a lê-lo.
   Continuamos a crescer, e o mundo à nossa volta torna-se mais complicado. Enfrentamos questões a que nem os adultos sabem responder. No entanto, é importante partilhar dúvidas e segredos com alguém. E aí o livro volta a ajudar-nos. Muitos de nós terão um dia pensado: este livro fala sobre mim! E a personagem favorita parece ser igual a nós. Tem problemas semelhantes, e resolve-os com dignidade. E há outra personagem que não é igual a ti, mas tu gostarias de seguir o seu exemplo, de ser tão corajoso e desembaraçado quanto ela.
   Quando há rapazes e raparigas que dizem “Não gosto de ler!”, isso faz-me rir. Não acredito neles. Comem gelados, jogam jogos e veem filmes interessantes. Dito de outro modo, gostam de se divertir! É que a leitura não serve apenas para desenvolver sentimentos e personalidades, ela é, acima de tudo, um prazer.
   É sobretudo com essa missão que os autores de livros para a infância escrevem os seus livros.
Sergey Makhotin
(tradução de Mª Carlos Loureiro a partir da versão inglesa de Yana Shvedova)
Fonte: dglab

01/04/2017

A BALADA DA CASA DA ILHA HOLLAND



   Uma belíssima e inovadora animação de Lynn Tomlinson que conta a história verdadeira da última casa da ilha de Holland, no estado norte-americano do Maryland. 
   No século XVII, chegam os primeiros colonos à ilha, destacando-se Daniel Holland que lhe deu o nome. No início, era habitada apenas por algumas famílias que se dedicavam à pesca. Pouco  a pouco, a beleza daquele local atraiu cada vez mais pessoas.  Em 1910 já lá viviam, permanentemente, 360 pessoas que tinham à sua disposição todo o tipo de serviços e equipamentos de uma pequena cidade -  escola, médico, posto dos correios, igreja, centro comunitário e até uma equipa de basebol. No entanto, pouco tempo depois, a fragilidade daquele lugar idílico revelou-se - a ação dos ventos e das marés causou a rápida erosão do solo, composto por argila e não por rocha. As famílias mudaram-se para o continente  e levaram as casas com elas, literalmente, tijolo a tijolo. Só restou uma, a da animação que narra a sua vida e a das criaturas que abrigou e contempla o tempo, as mudanças ambientais e a subida dos oceanos. 


30/03/2017

TEXTOS E PEIXES

Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
Clarice, de Rogério Zgiet
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.

Adília Lopes



29/03/2017

INTENSA E MISTERIOSA


Estou a ouvir música.
Debussy usa as espumas do mar a morrer na areia,
refluindo e fluindo.
Eu não enfeito, eu escrevo simples
Bach é matemático.
Mozart é o divino impessoal.
Chopin conta a sua vida mais íntima.
Schoenberg, através de seu eu, atinge o clássico eu de todo o mundo.
Beethoven é a emulsão humana em tempestade
procurando o divino
e só o alcançando na morte.
Quanto a mim,
que não peço música,
só chego ao limiar da palavra nova.
Sem coragem de a expor.
O meu vocabulário é triste
e às vezes wagneriano-polifônico-paranóico.
Escrevo muito simples e muito nu.
Por isso fere.
Sou uma paisagem cinzenta e azul.
Elevo-me na fonte seca e na luz fria...


Clarice Lispector


28/03/2017

"A VERDADE MORREU?"


A pergunta mais pertinente  e inquietante do tempo que vivemos. 
Será que o Presidente Trump consegue lidar com a verdade?, um excelente artigo de  Michael Scherer que pode ser lido (em inglês) aqui.

Capa da revista Time (edição de 3 de Abril)


27/03/2017

DIA MUNDIAL DO TEATRO

   Neste dia, trazemos uma figura incontornável no teatro português que nos é muito próxima:     António Pedro.
  Nasceu na cidade da Praia, em Cabo Verde, a 9 de Dezembro de 1909, numa família com raízes minhotas e irlandesas. Em 1955, num texto autobiográfico, podemos ler: Esta metade galaico-minhota e irlando-galesa do meu sangue fez-me gostar de gaitas de foles, de instrumentos de percussão e da conquista do impossível. Como meus tetravós celtas, se eu pudesse, atiraria setas ao sol. Minha família, no entanto, é de gente burguesa e bem-pensante. 
Dois auto-retratos de António Pedro, 1940.

  Passou por Seixas, La Guardia (Galiza), Viana do Castelo, Coimbra, Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Londres e Porto, tendo acabado os seus dias em Moledo.
A casa em Moledo

 Uma vida curta, faleceu com apenas 56 anos, mas muito intensa e com um enorme impacto na cultura portuguesa. Cruzou as áreas da literatura, pintura, desenho, cerâmica, ensaio, política e jornalismo (na B.B.C, durante a segunda guerra mundial, a voz dos portugueses que recusavam o monstro nazi-fascista, segundo Luiz Francisco Rebello). A sua obra Apenas Uma Narrativa é considerada, por muitos estudiosos, o primeiro romance surrealista da literatura portuguesa. Nas palavras de Eduardo Lourenço, um milagre sem repetição e nas de Jorge de Sena, obra-prima do romance surrealista.

  Antonio Pedro sonhou que um dia em São Lourenço da Montaria, uma rã pediu a Deus para ser grande como um boi. E que aliás foi, Deus é que rebentou, graças ao A. P. e ao Minho, onde ele se armou feiticeiro da imaginação, avejão lírico e, é claro, demagogo da visualidade dessa mesma circunstância indispensável aos génios.
 Por essas e por outras, vigílias e sonhos, é que nós, os devotos do A. P. íamos aprendizar nas romarias em Moledo a nossa alegria rã. Porque nos anos 50, sem ele na confabulação e convertendo-nos sigilosamente no Pinhal de Camarido, nem Portugal existia. Daí porque a fabulosa e bem humorada lamentação, de surrealismo minhoto, malicioso, se fazia necessária e nos aliciava para romeiros. Parávamos de coaxar, uns em Lisboa, outros no Porto e até alguns que chegavam de Paris para atracar no vasto Antonio Pedro. Ali se ia dar pulos, sonhar e ser rã.
Fernando Lemos, Apenas uma despedida

  No final da época de 50, Alexandre Babo e Eugénio de Andrade conseguem que aceite o papel de director artístico do recém-criado Círculo de Cultura Teatral - Teatro Experimental do Porto (TEP). O encenador revolucionário, como ficou conhecido, marcou pela diferença, abrindo novos caminhos para o teatro português. 
António Pedro e a atriz brasileira Maria della Costa, em Moledo, na década de 1950.
  Referindo-se à vida em Moledo, Fernando Lemos escreveu sobre o amigo Gigante - metafórica e literalmente (António Pedro media 2 metros o que lhe valeu ser dispensado do serviço militar): 
 Ali o Gigante foi-se aninhando num exílio demorado. O homem das sete léguas, avejão lírico que não cabia dentro de si nem na medida dos outros, ali foi engendrando a sua base e o seu ponto final.  Andou no Brasil como pintor, na África como jornalista, pelas várias Europas como intelectual, sempre insatisfeito, curtindo a mágoa de ser Gigante.


AS JANELAS SÃO A PRIMAVERA DAS CASAS

Poema do guarda-chuva aberto


26/03/2017

DIA DO LIVRO PORTUGUÊS


É a 26 de março que se celebra o Dia do Livro Português.
O Dia do Livro Português foi criado pela Sociedade Portuguesa de Autores com o intuito de destacar a importância do livro e da língua portuguesa em todo o mundo e no saber da humanidade em geral.
Foi escolhido o dia 26 de março para esta celebração pois foi neste dia, em 1487, que se imprimiu o primeiro livro em Portugal: o "Pentateuco", em hebraico. Ele saiu das oficinas do judeu Samuel Gacon, na Vila-a-Dentro, em Faro. Já o primeiro livro escrito em português foi impresso no Porto, dez anos depois, a 4 de janeiro de 1497. Produzido pelo primeiro impressor luso, Rodrigo Álvares, o livro tinha o título de "Constituições que fez o Senhor Dom Diogo de Sousa, Bispo do Porto".

Celebrar o Dia do Livro Português é ler autores portugueses e nada melhor do que uma visita à BE para os encontrar.