30/03/2017

TEXTOS E PEIXES

Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
Clarice, de Rogério Zgiet
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.

Adília Lopes



29/03/2017

INTENSA E MISTERIOSA


Estou a ouvir música.
Debussy usa as espumas do mar a morrer na areia,
refluindo e fluindo.
Eu não enfeito, eu escrevo simples
Bach é matemático.
Mozart é o divino impessoal.
Chopin conta a sua vida mais íntima.
Schoenberg, através de seu eu, atinge o clássico eu de todo o mundo.
Beethoven é a emulsão humana em tempestade
procurando o divino
e só o alcançando na morte.
Quanto a mim,
que não peço música,
só chego ao limiar da palavra nova.
Sem coragem de a expor.
O meu vocabulário é triste
e às vezes wagneriano-polifônico-paranóico.
Escrevo muito simples e muito nu.
Por isso fere.
Sou uma paisagem cinzenta e azul.
Elevo-me na fonte seca e na luz fria...


Clarice Lispector


28/03/2017

"A VERDADE MORREU?"


A pergunta mais pertinente  e inquietante do tempo que vivemos. 
Será que o Presidente Trump consegue lidar com a verdade?, um excelente artigo de  Michael Scherer que pode ser lido (em inglês) aqui.

Capa da revista Time (edição de 3 de Abril)


27/03/2017

DIA MUNDIAL DO TEATRO

   Neste dia, trazemos uma figura incontornável no teatro português que nos é muito próxima:     António Pedro.
  Nasceu na cidade da Praia, em Cabo Verde, a 9 de Dezembro de 1909, numa família com raízes minhotas e irlandesas. Em 1955, num texto autobiográfico, podemos ler: Esta metade galaico-minhota e irlando-galesa do meu sangue fez-me gostar de gaitas de foles, de instrumentos de percussão e da conquista do impossível. Como meus tetravós celtas, se eu pudesse, atiraria setas ao sol. Minha família, no entanto, é de gente burguesa e bem-pensante. 
Dois auto-retratos de António Pedro, 1940.

  Passou por Seixas, La Guardia (Galiza), Viana do Castelo, Coimbra, Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Londres e Porto, tendo acabado os seus dias em Moledo.
A casa em Moledo

 Uma vida curta, faleceu com apenas 56 anos, mas muito intensa e com um enorme impacto na cultura portuguesa. Cruzou as áreas da literatura, pintura, desenho, cerâmica, ensaio, política e jornalismo (na B.B.C, durante a segunda guerra mundial, a voz dos portugueses que recusavam o monstro nazi-fascista, segundo Luiz Francisco Rebello). A sua obra Apenas Uma Narrativa é considerada, por muitos estudiosos, o primeiro romance surrealista da literatura portuguesa. Nas palavras de Eduardo Lourenço, um milagre sem repetição e nas de Jorge de Sena, obra-prima do romance surrealista.

  Antonio Pedro sonhou que um dia em São Lourenço da Montaria, uma rã pediu a Deus para ser grande como um boi. E que aliás foi, Deus é que rebentou, graças ao A. P. e ao Minho, onde ele se armou feiticeiro da imaginação, avejão lírico e, é claro, demagogo da visualidade dessa mesma circunstância indispensável aos génios.
 Por essas e por outras, vigílias e sonhos, é que nós, os devotos do A. P. íamos aprendizar nas romarias em Moledo a nossa alegria rã. Porque nos anos 50, sem ele na confabulação e convertendo-nos sigilosamente no Pinhal de Camarido, nem Portugal existia. Daí porque a fabulosa e bem humorada lamentação, de surrealismo minhoto, malicioso, se fazia necessária e nos aliciava para romeiros. Parávamos de coaxar, uns em Lisboa, outros no Porto e até alguns que chegavam de Paris para atracar no vasto Antonio Pedro. Ali se ia dar pulos, sonhar e ser rã.
Fernando Lemos, Apenas uma despedida

  No final da época de 50, Alexandre Babo e Eugénio de Andrade conseguem que aceite o papel de director artístico do recém-criado Círculo de Cultura Teatral - Teatro Experimental do Porto (TEP). O encenador revolucionário, como ficou conhecido, marcou pela diferença, abrindo novos caminhos para o teatro português. 
António Pedro e a atriz brasileira Maria della Costa, em Moledo, na década de 1950.
  Referindo-se à vida em Moledo, Fernando Lemos escreveu sobre o amigo Gigante - metafórica e literalmente (António Pedro media 2 metros o que lhe valeu ser dispensado do serviço militar): 
 Ali o Gigante foi-se aninhando num exílio demorado. O homem das sete léguas, avejão lírico que não cabia dentro de si nem na medida dos outros, ali foi engendrando a sua base e o seu ponto final.  Andou no Brasil como pintor, na África como jornalista, pelas várias Europas como intelectual, sempre insatisfeito, curtindo a mágoa de ser Gigante.


AS JANELAS SÃO A PRIMAVERA DAS CASAS

Poema do guarda-chuva aberto


26/03/2017

DIA DO LIVRO PORTUGUÊS


É a 26 de março que se celebra o Dia do Livro Português.
O Dia do Livro Português foi criado pela Sociedade Portuguesa de Autores com o intuito de destacar a importância do livro e da língua portuguesa em todo o mundo e no saber da humanidade em geral.
Foi escolhido o dia 26 de março para esta celebração pois foi neste dia, em 1487, que se imprimiu o primeiro livro em Portugal: o "Pentateuco", em hebraico. Ele saiu das oficinas do judeu Samuel Gacon, na Vila-a-Dentro, em Faro. Já o primeiro livro escrito em português foi impresso no Porto, dez anos depois, a 4 de janeiro de 1497. Produzido pelo primeiro impressor luso, Rodrigo Álvares, o livro tinha o título de "Constituições que fez o Senhor Dom Diogo de Sousa, Bispo do Porto".

Celebrar o Dia do Livro Português é ler autores portugueses e nada melhor do que uma visita à BE para os encontrar.



24/03/2017

DIA DO ESTUDANTE

O Dia Nacional do Estudante é celebrado hoje, 55 anos depois da crise académica de 62. Um dia de luta e de homenagem, celebrado pelo movimento estudantil nacional, recordando as dificuldades que os estudantes enfrentaram nas décadas de 60.  



23/03/2017

AULA DE MÚSICA

Uma pequena animação com legendagem em português do Brasil sobre as Quatro Estações de Vivaldi. Parece que só mesmo aqui existem agora 4 estações.

22/03/2017

DIA MUNDIAL DA ÁGUA




São as águas de março
fechando o verão
É a promessa de vida
no teu coração

Cá marcam o início da primavera, no Brasil, o fim do verão. Renovação e vida, em qualquer lugar.
Águas de Março, é uma das canções mais famosas de Tom Jobim.
Com Elis Regina:


 A versão em inglês, Waters of March, por Stacey Kent e Suzanne Vega:


E em francês, Les eaux de Mars, por Georges Moustaki: 


21/03/2017

SOPHIA, "PARA QUEM AS ÁRVORES ERAM POESIA"



INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen


Às vezes, quando a casa estava adormecida, à noite, ela dançava pela sala fora, tal como escreveu («bailarina fui mas nunca bailei») (…)
Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os poetas eram todos uns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e diziam coisas surpreendentes. (…)
A segunda coisa sobre poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para ser escutada: é oral, não cabe nos livros.
 

Miguel Sousa Tavares, Não te deixarei morrer, David Crockett

Podem continuar a ler aqui.

20/03/2017

JÁ CHEGOU

De mansinho e a prometer algum frio, chegou a primavera às 10h29, sempre de mãos dadas com a poesia, a música e a pintura.

ENTRE MARÇO E ABRIL

Que cheiro doce e fresco,              
Primavera em Giverny
Claude Monet (1840 -1926),


Por entre a chuva,
Me traz o sol,
Me traz o rosto,
Entre Março e Abril,
O resto que foi meu,
O único
Que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e som de terra!
Não das mimosas,
Que já tinham florido
No meio dos pinheiros;

Não dos lilases,
Pois era cedo ainda para mostrarem
O coração às rosas ;
Mas das tímidas, dóceis flores
De cor difícil,
Entre limão e vinho,
Entre marfim e mel,
Abertas no canteiro, junto ao tanque.

Frésias,
Ó pura memória
De ter cantado –
Pálidas, flagrantes,
Entre chuva e sol
E chuva
- que mãos vos colhem,
Agora que estão mortas
As mãos que foram minhas ?"

Com o sopro da manhã e o aroma
das frésias eu sonhava longamente

Eugénio de Andrade

A Sonata Primavera (Op. 24) em Fá Maior é a quinta das sonatas para violino de Beethoven. Foi editada em 1801 e dedicada ao mecenas Conde Moritz von Fries.
Aqui por  Maria João Pires e Augustin Dumay:

FECHO ÉCLAIR

Gideon Sundbäck
A 20 de março de 1917, o engenheiro Gideon Sundbäck recebeu a patente nr.º 1.219.881 pela invenção do fecho éclair. Sundbäck nasceu na Suécia em 1880, estudou na Alemanha e emigrou para os Estados Unidos da América, onde é considerado um dos mais importantes inventores do país. O engenheiro desenvolveu a ideia do sistema de fecho de Whitccomb L. Judson, substituindo ganchos e argolas por dentes metálicos entrelaçados uns nos outros, criando assim o fecho de correr ou fecho éclair.


O nome fecho éclair teve origem no francês “fermeture Éclair”, da sociedade Éclair Prestil SN que detém o registo da marca desde a sua fundação, em 1946. 

E o Fecho Éclair, de António Gedeão? É sobre o rei espanhol Filipe II. Tinha tudo... menos um fecho éclair.


Poema do Fecho éclair

Filipe II tinha um colar de oiro 
tinha um colar de oiro com pedras
rubis. 
Cingia a cintura com cinto de coiro, 
com fivela de oiro, 
olho de perdiz. 
Comia num prato 
de prata lavrada 
girafa trufada, 
rissóis de serpente. 
O copo era um gomo 
que em flor desabrocha, 
de cristal de rocha 
do mais transparente. 

Andava nas salas 
forradas de Arrás, 
com panos por cima, 
pela frente e por trás. 
Tapetes flamengos, 
combates de galos, 
alões e podengos, 
falcões e cavalos. 

Dormia na cama 
de prata maciça 
com dossel de lhama 
de franja roliça. 
Na mesa do canto 
vermelho damasco 
a tíbia de um santo 
guardada num frasco. 

Foi dono da terra, 
foi senhor do mundo, 
nada lhe faltava, 
Filipe Segundo. 

Tinha oiro e prata, 
pedras nunca vistas, 
safira, topázios, 
rubis, ametistas. 

Tinha tudo, tudo 
sem peso nem conta, 
bragas de veludo, 
peliças de lontra. 

Um homem tão grande 
tem tudo o que quer. 

O que ele não tinha 
era um fecho éclair. 

António Gedeão


19/03/2017

PAI

O diálogo entre um jovem sedento de liberdade e de desejo de independência e o  pai que o aconselha, com a sua experiência de vida. 

Father and Son

It's not time to make a change
Just relax, take it easy
You're still young, that's your fault
There's so much you have to know
Find a girl, settle down
If you want you can marry
Look at me, I am old, but I'm happy

I was once like you are now, and I know that it's not easy
To be calm when you've found something going on
But take your time, think a lot
Why, think of everything you've got
For you will still be here tomorrow
But your dreams may not

How can I try to explain
Cause when I do he turns away again
It's always been the same, same old story
From the moment I could talk I was ordered to listen
Now there's a way and I know that I have to go away
I know I have to go

It's not time to make a change
Just sit down, take it slowly
You're still young, that's your fault
There's so much you have to go through
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old, but I'm happy

All the times that I cried
Keeping all the things I knew inside
It's hard, but it's harder to ignore it
If they were right, I'd agree
But it's them they know not me
Now there's a way and I know that I have to go away
I know I have to go

 Cat Stevens, agora Yusuf Islam

18/03/2017

IN MEMORIAM

Chuck Berry

1926-2017

Um dos pioneiros do rock 'n' roll, admirado pelos Beatles e Rolling Stones, morreu hoje, aos 90 anos.

E POR CÁ...

   Mais uma mensagem. Mais um telefonema. A visão de pais agarrados aos telemóveis na hora de ir buscar os filhos depois das aulas é cada vez mais comum nos portões das escolas. A fim de combater o problema da falta de interação entre pais e filhos, a escola primária St. Joseph’s RC Primary School, em Middlesbrough, no Reino Unido, alargou a proibição do uso do telemóvel aos pais, incentivando-os a desviar os olhos do ecrã e olhar mais pelos mais novos.
   Nas três portas da instiuição um sinal apela: “Venha buscar o seu filho com um sorriso e não com o telemóvel”. 
in  O Jornal Económico
Podem continuar a ler aqui

17/03/2017

PERSONALIDADE+

 

Nat "King" Cole celebraria 100 anos hoje. Extraordinário pianista, dono de um requintado swing e percursor, no jazz, do trio piano, contrabaixo e guitarra, seria como cantor que ficaria mundialmente famoso. Nada melhor que as palavras do especialista José Duarte para caracterizar Nat "King" Cole.
   O que há de mais interessante para se dizer sobre ele é que morreu apreciado como um grande cantor. Mas é preciso também referir que, além disso, era um extraordinário pianista. Esta é uma faceta menos conhecida do público em geral, mas é a mais importante", afirma José Duarte.

   "Por isso mesmo é que no meu programa de rádio, 'A menina dança', passo muitas coisas do Nat 'King' Cole. Toco músicas dele a cantar em Inglês e em Castelhano e os temas que interpretou como pianista com o seu trio", acrescenta o professor auxiliar convidado para disciplina de opção livre Jazz na Universidade de Aveiro.
   "Enquanto cantor, ele tinha, sem dúvida, um estilo tão definido que nunca ninguém o conseguiu imitar. Abre a boca nas gravações e toda a gente sabe que é ele que está a cantar. Mas, no que respeita a estilos únicos, não está sozinho. Também Charlie Parker, como instrumentista (era pianista e saxofonista), foi inimitável".
   E, depois, há a voz. "A própria maneira que ele tinha de cantar solidificou um estilo. E foi esse estilo que o celebrizou. Mesmo a cantar em Castelhano, com aquela pronúncia, era fabuloso. Tinha um 'swing' e uma fraseologia muito peculiares, impossíveis de copiar", sublinha o especialista.(...)

   Por isso, justifica, "é que ressalto a vertente de instrumentista de Nat 'King' Cole. O seu talento está plasmado em peças que são obras-primas, em que se faz acompanhar de outros intérpretes famosos de jazz. Para mim, essas gravações em trio são das melhores de toda a sua discografia. Era um músico muito evoluído para a época".

in JN

DIA DE SÃO PATRÍCIO (SAINT PATRICK'S DAY)


   17 de março, Saint Patrick's Day, coloquialmente St. Paddy's Day, ou simplesmente Paddy's Day é o dia nacional da Irlanda. Apesar de ser um feriado religioso em homenagem ao histórico padroeiro, é também uma celebração da nacionalidade, em particular para as comunidades irlandesas que vivem no exterior. 
   São várias as tradições deste dia e quase todas à volta da cor verde da Ilha Esmeralda.  
 
As pessoas vestem-se de verde para acompanhar desfiles nas ruas e usam também o tradicional trevo de três folhas – shamrock.


Em Chicago, até o rio fica verde

Por todo o mundo, iluminam-se de verde edifícios e locais emblemáticos.

Museu Condes de Castro Guimarães, Cascais
Hotel Burj Al Arab, Dubai

Torre Eiffel, Paris

E para saber a história de São Patrício:



May you always have
Walls for the winds,
A roof for the rain,
Tea beside the fire,
Laughter to cheer you,
Those you love near you,
And all your heart might desire!

(benção do dia de São Patrício)







16/03/2017

SÓ MAIS UM


O gato

Chama-se Luís o gato do terceiro
e é companheiro de um mestre filósofo.
Em madrugadas altas há por vezes sobressalto,
quando o bichano acorda mal disposto.
O professor, sábio também
em jogos de paciência, acalma
o animal e já o mima. Trata-se,
vendo bem, de outra ciência,
tão difícil de conseguir como
um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho
da Silva, o do terceiro, e tem um gato
com quem, à vontade, discreteia.
Luís, discípulo, ronrona baixinho.
Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.

15/03/2017

DIA MUNDIAL DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR

    A 15 de março de 1962, o Presidente John Fitzgerald Kennedy fez um discurso sobre a proteção dos interesses do consumidor. JFK salientou que todo consumidor tem direito à segurança, à informação, à escolha e a ser ouvido. O discurso originou debates em vários países e foi o motor para que se realizassem estudos sobre o tema, sendo, por isso, considerado um marco na defesa dos direitos do consumidor. Assim se explica a escolha de 15 de março como Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, comemorado a partir de 1983.
   Em Portugal, os direitos do consumidor encontram-se consagrados na Constituição e na Lei de Defesa do Consumidor. Os consumidores podem reclamar utilizando para o efeito o Livro de Reclamações, obrigatório em todos os estabelecimentos públicos e privados. Em alternativa, podem apresentar uma reclamação diretamente no Portal do Consumidor.
 

14/03/2017

GATOS E ESCRITORES III

Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

Alexandre O´Neill, o gato e o adeus

O GATO, vendo o poeta de ombro apoiado na ombreira a observar a feira cabisbaixa em seu redor, acercou-se dele e perguntou-lhe, no murmúrio ronronado que costuma servir de preâmbulo às grandes questões metafísicas:
- Servos ou donos?
O poeta, por achar a pergunta demasiado enigmática, contornou a resposta afagando-lhe o dorso e dizendo:
- Deves estar cheio de fome, o teu mal é fome, e eu não tenho forma de remediar esse problema, porque não sou rato, nem peixe, nem pássaro estonteado pela luz. Eu sou apenas um pobre poeta de ombro na ombreira.
Mas o gato, apurando o gutural e afectuoso ronrom, insistiu:
- Sei bem ao que venho, sim, porque eu nunca me esqueço dos versos que me são dedicados. Eu bem me lembro das tuas palavras, Alexandre: Que fazes por aqui, ó gato? / Que ambiguidade vens explorar? Quem sou eu, meu caro Alexandre, para te deixar sem resposta, logo a ti, meu poeta de Lisboa, de coração amarfanhado pela tenaz da mais irónica ternura?
Foi então que Alexandre se lembrou do gato do poema, dessa coisa ágil e esquiva, soberana e livre, em forma de assim, fugaz como um golpe de vento, rebelde como uma metáfora imprevista. 
- Tantas vezes te deixei utilizar esta mão — disse — que cheguei a acreditar que, quando escrevesse um poema sobre ti, serias tu mesmo a escrevê-lo, de forma mediúnica, usando o movimento pausado da minha mão sobre o papel.
O gato, esse mesmo, o do poema, roçou a cabeça pelas pernas do poeta, impregnando-se com o seu cheiro, com o perfume das suas palavras exactas e limpas, e depois aventurou-se num breve monologo de bicho filosofante. Assim:
- É como te digo, Alexandre, tu e eu temos em comum este vício felino de sermos livres, nas palavras, nos gestos, nos silêncios. Um dia, tu partes e eu fico para aqui abandonado a miar à lua, como se perguntasse por ti. Um dia, eu parto e tu ficas sem gato a quem possas dedicar o poema, órfão de gato, nostálgico da sua arqueada liberdade arrastada sobre os telhados como uma confissão de nocturnos cios.
O poeta, emocionado com a enleante sabedoria do gato, esse mesmo, o do poema, só conseguiu perguntar-lhe:
- Afinal, vamos lá a saber, o poeta és tu ou sou eu?
Ao que o gato respondeu:
- Somos os dois, Alexandre, somos os dois, cada um à sua maneira. Tu no que escreves e eu no que não escrevo mas vivo. Temos este destino comum a ligar-nos como uma ponte, como uma centelha de luz, como um arame a juntar as duas extremidades da lua nova.
Alexandre, o poeta, só encontrou uma forma de lhe responder:
- Há miar e miar, há ir e voltar.
Ainda a frase não se deixara concluir e já o gato se empoleirara sobre o parapeito de uma janela, muito perto da ombreira da porta, posto de observação do poeta para ver a feira a ficar cada vez mais cabisbaixa, por falta de esperança para erguer de vez a cabeça em direcção ao sol.
Do gato nunca mais o poeta teve noticias, nem em prosa nem em verso, e quando, num sisudo dia 21 de Abril, o coração do poeta, como um gato triste e cansado, se recusou a levar por diante a faina de estar vivo, houve quem avistasse um velho gatarrão sobre o parapeito da janela do hospital, murmurando com a sapiência do seu estilo ronronado:
- Há miar e miar, e tu, Alexandre, hás-de voltar, porque um gato sem o seu poeta de estimação fica prometido à morte como um pardal à inclemência do relâmpago.
E quando alguém, aproximando-se dele, quis saber "o que fazes por aqui, ó gato?", o bichano, arqueando-se para o derradeiro salto na direcção da lua, respondeu apenas:
- Perguntem ao Alexandre, ao O'Neill, que só ele sabe. Os poetas é que sabem. É dos livros.
Conto de José Jorge Letria, em Amados Gatos

13/03/2017

GATOS E ESCRITORES II


Dois poemas de Manuel António Pina



Gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos


Às vezes o gato fitava 
com estranheza 
 o que de nós (um excesso) 
se intrepunha entre nós e o gato,  a nossa presença.



12/03/2017

GATOS E ESCRITORES I

  Quem se lembra de Manuel António Pina a alimentar os gatos no cemitério de Agramonte? Eugénio de Andrade viveu também rodeado de gatos e deixou-os invadir a sua poesia. Assim aconteceu e acontece com tantos outros de Bocage a Adília Lopes. 
   Para melhor compreendermos esta relação, vamos convocar entendidos na matéria. 
  Eugénio Lisboa
Eugénio Lisboa - Na Primeira Pessoa - GATOS (excerto) from LB Produções on Vimeo.

Gatos e literatura 

[há sujeições que posso tornar públicas e essas são os gatos e a escrita. Devo dizer que reconheço nas duas entidades semelhanças.

Talvez os gatos e a escrita tenham vindo do mesmo ovo que um deus fertilizou. Instalaram um trono vitalício dentro da minha vida desde cedo. Incorporei-os tão intensamente que nem sei onde acabo e eles começam. Há uma simbiose que pertence à mais baixa biologia. Mas a palavra simbiose é mal escolhida. Eles viveriam muito bem sem mim. Eu, sem eles, é que não. E sabem isso. Sabem perfeitamente que dominam.
Comportam-se ambos com igual sobranceria. Vêm se querem, quando querem, para que os sirva, mas se sou eu a convocá-los, não me ligam. Se entendem que lhes devo abrir a porta, chamam às horas mais desconfortáveis. Lá me levanto, às quatro da manhã, ou para escrever ou para deitar whiskas no prato. A retribuição é coisa pouca: um roçar pelas pernas, uma frase. E eu, ciente da minha condição, renunciando à dignidade humana, agradeço a bondade do incómodo.
Estou sempre preparada para o encontro: na mochila carrego com comida para felinos... e um caderno. Se me aparece um gato, faço a vénia, mio delicadamente e dou o almoço. Se me aparece a frase, paro e escrevo.
Sempre de momentos breves, porém intensos e definitivos. Passa-se nisto o tempo de calor. Pelos começos do Outono, surgem hóspedes dispostos a estadia prolongada: o gato fica de pensão completa, passa os meses do frio e vai-se embora. A escrita permanece em casa pelo mesmo período. Os meus gatos de Inverno adoram chuva. A minha escrita só consegue organizar-se em texto quando chove. De Março até Outubro, o que reúno das raras frases que consentem aparecer resulta em pequenos contos. Mas enquanto andam nuvens negras pelo céu, a corrente entre a escrita e os meus dedos alcança nível proporcional à pluviosidade da estação.
Com a subida geral das temperaturas e a saarização deste país, é de fazer ideia que decorrem os dias e os meses e os anos sem que essa energia das palavras que me caem do céu “como farrapos” possa gerar um livro que se veja. Bem procuro imitar um clima nórdico, espalhando em roda certos objectos, tais como o pau-de-chuva do Peru, o quadrinho de areia branca e negra que vai caindo com a gravidade, criando a ilusão de um temporal, uma canção dos LadySmith, Mambazo, Rain, Beautiful Rain, que o Changuito me trouxe, uma caixa de música com o Singing in the Rain… Formam como que um templo de oferendas e é dentro dele que me escondo, à espera.
Porque escrevo frase a frase, hoje uma, outra não sei quando virá, inseridas num esquema musical que determina a sequência. Não é maneira de fazer romances, mas quem sou eu para dizer à escrita que devia tentar ter disciplina?
Estou feliz porque a gatinha que me apareceu este Inverno não tenciona emancipar-se tão depressa. De chuva, pouco vejo. Mas talvez a escrita aceite aqui morar por algum tempo, como esta extraordinária Emily Duncan. É gatinha com nome de escritora – Emily Brontë – e de Isadora, inspiração eterna. Desde que ela apareceu começamos as manhãs a dançar. Se pela noite, surgir uma pequena, amável frase, talvez que finalmente nasça um livro.]
 Hélia Correia, revista Time Out de Lisboa


11/03/2017

26 ANOS DEPOIS



A Disney voltou a trabalhar a história A Bela e o Monstro e, 26 anos depois do filme de animação, estreia um novo filme com imagem real. Emma Watson, a Hermione de Harry Potter, é agora Belle.

10/03/2017

NÃO CHEGOU JÁ?


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

09/03/2017

NOVO RECURSO

O site RTP Arquivos foi remodelado e está disponível desde segunda-feira. 
Um excelente recurso para todos, com documentos em vários formatos (imagem em movimento, audio, fotografia, textos) desde a década de 1930 até à atualidade. Podem começar a pesquisar aqui.

08/03/2017

GATOS ... HÁ MUITOS!

Deita gatos - Collectus
   Este postal fez-nos lembrar que Gatos ... há muitos. Quem ainda se lembra dos homens que percorriam as aldeias a consertar guarda-chuvas, a deitar pingos nas panelas e a remendar a louça partida? Muito, muito poucos. 
  Como garras de gatos, as rachadelas da louça agarravam as partes desavindas, como nesta imagem.




  Processo um pouco deselegante, mas que permitiu que muitas peças valiosas chegassem até nós e estejam agora nos museus.
  Segundo o blogue Velharias do Luís, a operação era assim executada:
 Este trabalho era normalmente feito pelos amoladores galegos que andavam de terra em terra. (...) Usavam umas brocas manuais, que se assemelhavam a uns arcos, para perfurar a loiça, fazendo furinhos oblíquos, mas mesmo assim, era um trabalho difícil e de grande precisão, pois conseguiam uma junção perfeita das partes, que impedia que os líquidos vertessem. Segundo o meu pai, estes amoladores usavam também uma cola feita de clara do ovo, que era altamente resistente ao vapor e humidades.





  Fernando Pessoa recorda-nos o deita gatos que apenas consegue remendar pratos...

    Ó rapaz que deita gatos,
    Deitas gatos só em pratos,
    Só em tachos e tigelas,
    Ou deitas gatos também
    Nas almas e no que há nelas
    Que as quebra em mal e em bem?


    Ah, se, por qualquer magia,
    As tuas artes subissem
    Àquela melhor mestria
    De pôr gatos que se vissem
    Nesta alma que se quebrou
    No que sonho e no que sou!


   Então...Qual então! Que tratos
   Dei a um poema que surgiu!
   Só consertas, só pões gatos
   No inteiro que se partiu.
   O que partido nasceu
   Nem tu consertas nem eu.


07/03/2017

HARRY POTTER NO TEATRO


O elenco de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada.
Fotografia de Manuel Harlan

Depois do sucesso de Harry Potter nos livros e no cinema, confirma-se que o mágico também bate recordes nos palcos.
Harry Potter and the Cursed Child, a adaptação para teatro da mais recente aventura do mágico, conseguiu onze nomeações para os Olivier, os prémios do teatro britânico. Um recorde.
O enredo da peça passa-se 18 anos depois do mágico sair da escola de Hogwarts e é Jamie Parker que veste a pele de Harry Potter, adulto e pai de três filhos.
Tudo isto, somado à fama de Harry Potter, levam a que não seja fácil encontrar um bilhete que permita a entrada no Teatro Palace, em Londres. No website a produção explica que até 29 de abril, do próximo ano, os bilhetes já estão esgotados.
in TSF

05/03/2017

PARABÉNS, PÚBLICO

Este domingo, dia 5 de Março, o PÚBLICO faz 27 anos. O escritor Miguel Esteves Cardoso foi escolhido para ser o director por um dia.
Uma edição especial para ler de ponta a ponta. Só o lado bom do nosso país, pelo menos por um dia.
Comecem exatamente pelo editorial de David Dinis que termina assim:

É isso mesmo. Hoje, o PÚBLICO sopra as suas 27 velas, a olhar para o país como um luxo. A olhar para o jornalismo como um luxo, também. Porque é um luxo estar aqui, não a cada dia, mas a cada minuto que passa. A ajudá-lo a informar-se, a pensar, a escolher, com aquele ADN que o Vicente nos deixou. Mas a procurar novas formas de o fazer. 
Por isso, respire fundo, sopre as velas. O lado bom começa aqui, no seu PÚBLICO. E continuará, com a liberdade de sempre, pelos seus dedos, pelo seu olhar. Até já.

Não esqueçam, está disponível aqui.

04/03/2017

DEPOIS É A RITALINA, CLARO

Gostamos destas irritações de Paulo Guinote.

Já sei que isto é assunto delicado para muita gente e raramente escrevo sobre o tema sem levar na cabeça. Mas… que se lixe. Assisto, quase diariamente, à forma como uma mamã do século XXI encara a criação do seu filhinho querido, a quem nada é negado, nenhum horário é imposto, nenhuma patetice é assim considerada, seja qual for a hora, tudo sempre recebido com exaltados gritinhos de satisfação e demais excitações sem parar. O puto não tem culpa se ninguém lhe apresenta uma qualquer estrutura de tempo e acções, se pensa que tudo é possível, a qualquer hora e, mais importante, sempre recebido com a alegria de que assim é que deve ser, faça o que fizer, incluindo boladas pelas paredes a qualquer hora e demais correrias em sapateado. Gratificação imediata e multiplicada. E nem adianta dizer seja o que for. Quando a criança chocar de frente com qualquer tentativa para lhe apresentar um horário e tarefas para cumprir irá, quase por certo, birrar, espernear, reagir mal, desconcentrar-se ao primeiro estímulo e a mamã lá estará a dizer que é impossível porque ele é um anjo, um santo. O seu santinho. E a ter de haver solução, medica-se, que é mais fácil.

Já sei… estou a simplificar, a exagerar, a caricaturar. Olhem que não, olhem que não. Nem tudo se resolve com (auto) disciplina, mas alguma coisa se conseguirá. Não é preciso ofenderem-se e darem os sermões do costume sobre a minha profunda ignorância sobre estas matérias. Só que nem tudo são patologias… há casos em que o problema é mesmo outra coisa. Basta não se perceber quem é mais infantil numa casa. No mau sentido.



03/03/2017

A NÃO PERDER

José Pacheco Pereira vai estar presente na inauguração do Espaço Ephemera em Viana do Castelo, hoje, às 17h30, no Girassol.
Já existem espaços Ephemera  em várias cidades do país.  É aí que voluntários recolhem  todo o tipo de materiais desde autocolantes, comunicados, fotografias, cartazes, faixas, pins que se relacionem com atividades de caráter político e social.
Ephemera, a Biblioteca e Arquivo de Pacheco Pereira, constitui um universo de materiais históricos e políticos imenso e inédito, que ficará agora publicamente disponível através dos livros da coleção Ephemera, como se pode ler aqui.

À noite:



02/03/2017

PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in Viagem Através de uma Nebulosa

01/03/2017

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, música de Carlos Lyra para o poema de Vinicius de Moraes.

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar
De que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz.